Encantos do Sul

A cachaça, o alambique e a tradição mantida há três gerações

Conheça a história do alambique do Vô Zeca, destino imperdível na Rota da Baleia Franca

Por Thiago Hockmüller - thiago.hockmuller@engeplus.com.br

Em 27/09/2018 às 13:41

Pense em um alambique que já sobrevive há três gerações. Um lugar simples, rústico e que oferece uma das melhores pingas de Santa Catarina e porquê não do Brasil. Esse lugar existe, e fica em Garopaba, ao pé do Morro do Fortunato, na comunidade de Macacu. Para chegar ao famoso Engenho e Alambique do Vô Zéca é necessário andar por uma estrada de chão em meio a uma mata nativa cercada pela lagoa de Macacu.  

Este é mais um dos destinos imperdíveis para quem deseja curtir a Rota da Baleia Franca e conhecer mais sobre a tradição local. O alambique do Vô Zeca fica a poucos quilômetros da comunidade quilombola do Morro do Fortunato, e ambos serão assunto no Portal Engeplus. 

Na primeira reportagem vamos contar a história do seu José Constâncio de Souza, de 90 anos, ou melhor, o vô Zeca e seu alambique. E isso só é possível graças ao seu neto, Luiz Fernando, 21 anos, estudante de agronomia e que entende tudo de cachaça. Conhecimento passado pelo avô e pelo seu pai, Joaquim Pereira de Souza, que é a cabeça pensante do alambique. 

Ele que corta a cana, faz todo o processo de moagem, fermentação e destilação. O vô, mesmo tendo 90 anos, cuida do fogo, ou quando tá fazendo melado ajuda a bater. Ou mandando em alguma coisa... ele é fundamental porque o ponto do melado e do açúcar pedimos para ele falar. Ele quem diz se a cachaça vai ser boa ou não 

Luiz Fernando, 21 anos, estudante de agronomia e neto do seu Zeca
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Mas voltando ao seu Zeca... ele é famoso na região por contar boas histórias. Dizem que pessoas vão ao alambique para apreciar a cachaça e também ouvir relatos antigos do seu Zeca, que guarda consigo 50 versos sobre a história da cachaça e que foram publicados em um livro no longínquo ano de 1930. A publicação não existe mais, mas os versos estão gravados na memória do alambiqueiro. Detalhe: apenas os conta de forma aleatória, para que ninguém grave a poesia. Segundo o neto, o vô Zeca quer rotular a cachaça e gravar os versos na garrafa.  

Por incrível que pareça, tímido e reservado, não quis dar entrevista.

Receita centenária 

Produtor de cachaça de mão cheia, ele mantém vivo o mesmo método de produção de seu pai e avô. Uma produção feita à moda antiga. Para se ter uma ideia, o transporte de cana de açúcar ainda é realizado em carros de boi. “O hábito da produção de cachaça na minha família foi iniciado com o meu tataravô, que já produzia cachaça. E naquela época o foco era utilizar o que sobrava do melado. Como eles tinham muita plantação de cana, o suficiente para subsistência, acabava sobrando. E para não perder o melado eles destilavam produzindo a cachaça”, conta o jovem Luiz Fernando (foto), enquanto cuida com atenção o processo de produção da pinga.  

Como a produção é artesanal, para manter o sabor refinado da cachaça o processo é lento. Em média são produzidos 70 litros de cachaça por dia. Além do mais, são produzidos ainda 50 quilos de açúcar por safra e 200 quilos de melado por safra. “É uma cachaça bem macia. Temos algumas etapas essenciais para manter uma cachaça boa. Tem algumas coisas que levamos em consideração, mas inconscientemente. A destilação tem que ser lenta. A cachaça tem que correr no tempo dela, é um trabalho de paciência”, explica Luiz Fernando.  

Embora muito antigo e histórico para o município, o engenho ficou um bom período desativado. Os trabalhos no local só foram retomados em 2007, e desde a reabertura 90% da produção é comercializada ali mesmo. O restante é comercializado em bares e restaurantes. 

Incentivo ao turismo 

A região do Macacu, onde fica o Morro do Fortunato e o alambique do Vô Zeca, é uma das rotas indispensáveis para turistas que visitam Garopaba. Ali também é possível visitar a cachoeira do Macacu, um lugar de cascatas e uma bela paisagem natural. 

Para a exploração turísticas destes locais, foi criada a Associação Costa Catarina, que envolve os municípios de Garopaba, Paulo Lopes e Imbituba. “Estão buscando encontrar pontos para fortalecer o turismo na baixa temporada. O alambique é um dos pontos. A associação reúne atores responsáveis pelo desenvolvimento territorial destes municípios. São pescadores, agricultores, comunidades tradicionais, artesãos e donos de pousadas”, assegura Luiz Fernando.  

A associação estimula a prática de receptividade aos turistas. No alambique, por exemplo, é contada a história do engenho e o processo de produção. É possível, inclusive, acompanhar o transporte da cana de açúcar nos carros de boi.  

Levamos as pessoas a entenderem a realidade local, o que motiva a pessoa continuar produzindo cachaça em um local com especulação imobiliária forte e onde a agricultura não é tão valorizada 

Luiz Fernando, neto do seu Zeca
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Sem método artesanal, sem negócio 

Além da pura, tem cachaça de canela, açaí, jabuticaba, butiá, uva e a consertada. “A consertada é feita com a folha da lima com gengibre. Aí cozinhamos. Depois a gente côa o café e misturamos com a cachaça branca, que é a pura. Depois colocamos cravo, canela e o melado”, explica Kaliane de Paulo, cunhada de Luiz Fernando e que trabalha na recepção aos turistas e na venda da cachaça.  

O bom resultado obtido na cachaçaria do Vô Zeca chamou atenção de grandes indústrias do setor. Boas propostas financeiras foram feitas para rotular a cachaça da família. Mas a possibilidade de modernizar as etapas de produção não agradou e a família manteve a tradição.  

Foram propostas muito boas para se ganhar dinheiro. Mas o pai é muito pé no chão e não gostamos muito de arriscar. Uma empresa queria comprar toda a nossa produção. Eles iriam rotular a produção e exportar. Também recebemos propostas para realizar parceria para exportações e vender em outros Estados, além do estímulo para aumentar a produção e modernizar algumas etapas

Luiz Fernando, neto do seu Zeca

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Para Luiz Fernando, qualquer mudança na forma de fermentar e destilar a pinga vai alterar o produto. E isto está fora de cogitação. “Nunca pensamos nisso. Quando iniciamos não existia nenhuma intenção de tornar um negócio. Se for para fazer algo que torne uma renda, que seja dessa forma. Se for para tornar mais técnico, tem que ser algo muito pontual, que não envolva a destilação e não mexa na fermentação. Que não torne este local apenas uma casa de visitação e a produção seja em outro ponto”, pondera. 

Portanto, enquanto tiver membros da família dispostos a tocar o alambique, a velha e boa cachaça do Vô Zeca continuará a ser produzida e comercializada para turistas brasileiros e de outros países.

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