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Melhora de Vida

Em Criciúma, senegalês busca vida melhor para a família

Abdoulay Kandji, de 35 anos, trabalha vendendo roupas nas calçadas da cidade

Por Rafaela Custódio -

6 min de leitura

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Em Criciúma, senegalês busca vida melhor para a família
Foto: Rafaela Custódio

Há quatro anos, Abdoulay Kandji, de 35 anos, saiu de Senegal em busca de uma vida melhor. Seu primeiro destino foi São Paulo. O imigrante ficou um ano na cidade paulista e, para fugir da violência, do racismo e também do preconceito, veio para Criciúma tentar nova vida.

Em Senegal, deixou esposa e dois filhos - de 10 e 7 anos. Ele veio em busca de oportunidades e, principalmente, tentar dar aos seus filhos alimentação, educação e fazer com que sua família não ficasse desamparada no outro lado do mundo.

Atualmente, Kandji manda, em média, R$ 500,00 por mês, valor que é convertido para o franco CFA Ocidental (BCEAO). De acordo com o senegalês, o dinheiro serve para a sobrevivência dos familiares. “Se eu não mandar o dinheiro, eles podem passar fome. Tenho dois filhos que precisam comer. Minha mulher e meus pais também são pessoas que precisam de mim. Preciso trabalhar sempre e buscar de todas as formas mandar dinheiro para a sobrevivência deles”, comentou.

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Trabalho

O senegalês chegou à Criciúma há três anos e trabalhou em uma empresa de alimentos, mas não conseguiu ter continuidade na empresa. Por não poder ficar sem mandar dinheiro para a família, iniciou as vendas nas ruas. “Precisamos trabalhar de qualquer forma. Precisamos alimentar nossa família e nós também. Muitas vezes, não temos o que comer porque tem semanas que as vendas são boas, mas tem dias que não vendemos nada”, explicou.

Sobre as roupas que Kandji vende, o senegalês ressalta que são produtos vendidos por comissão. “Nós recebemos por comissões, então, tudo que pegamos, precisamos pagar e depois nos repassam um valor”, detalhou.

Atualmente, o senegalês mora com mais dois homens, todos do Senegal. “Nós viemos em busca de uma vida melhor. Fugimos da pobreza, da miséria e, principalmente, da violência. Dividimos um apartamento e fizemos nossa comida, realizamos as compras e mandamos o que sobra para a família”, lembrou.

Dificuldades

De acordo com Kandji, a principal dificuldade é ficar sem a família. “Faz quatro anos que não vejo meus filhos. Quero muito ver eles, abraçar e ter um contato. Nós conversamos pelas redes sociais, mas não é igual. O contato faz diferença”, ressaltou.

O senegalês reconheceu a existência de preconceito com os imigrantes, porém, lembrou que existem muitas pessoas interessadas em fazer o bem. “Em todos os lugares existe o lado ruim e bom, aqui não é diferente. Tem pessoas que passam por nós e, muitas vezes, nos olham com preconceito, com indiferença, mas não podemos ligar. Viemos aqui para trabalhar, temos toda uma história por trás dessas roupas que vendemos”, declarou.

Solidariedade

Enquanto a reportagem do Portal Engeplus conversava com Kandji, dois criciumenses o pararam e pediram dinheiro. “Quem já passou fome não quer que outras pessoas também sintam. Eu busco ajudar, por isso, tem gente que me pede dinheiro. Se eu tiver dinheiro, nunca vou negar”, expressou.

Assim como o senegalês ajuda pessoas, ele também já foi ajudado. “Já me ajudaram. Por muitas vezes não passei fome porque recebi dinheiro de alguém. Por exemplo, tem gente que para aqui e pergunta se quero almoçar, e isso faz a diferença na vida de alguém”, relatou.

Kandji comentou que quer passar o resto da vida na cidade. “Não tenho intenção de ir para outro lugar, vou fazer de tudo para trazer minha família, de tudo. Vivemos bem aqui e podemos melhorar ainda mais com o passar dos anos”, revelou.

“Tem muita gente que não sabe porque estamos aqui. Mas temos um objetivo, tudo na vida tem um porquê. O meu e o da maioria dos outros imigrantes que se afastaram da família para poder fazer com que eles sobrevivessem”, contou.

“Ele vai voltar a ver seus familiares”

O monitor de loja Antônio Carlos dos Reis conheceu Kandji na área central de Criciúma. A dupla fez amizade e, atualmente, o senegalês faz parte da família de Reis. “Tive duas filhas, mas, infelizmente, uma faleceu e a outra mora na Irlanda. O tenho como uma pessoa da minha família. Ele já almoçou na minha casa, com as pessoas próximas de mim, e ele faz diferença”, explicou.

Reis contou que os pais de Kandji já são idosos e ele tinha muita vontade de vê-los novamente, com isso, o criciumense comprou a passagem e todo mês o imigrante paga uma parcela. “Ele nunca atrasou uma parcela. Tenho confiança nele e, por isso, ajudei e vou continuar ajudando se precisar. Ele vai voltar a ver seus familiares”, estimou.

Kandji irá viajar para Senegal neste mês de agosto e ficará 40 dias com a família, mas voltará em seguida. “Ele foi para Brasília e fez toda a documentação necessária para poder voltar e, com certeza, eu e minha família estaremos esperando por ele”, adiantou.

O criciumense afirmou que é preciso dar espaço para os imigrantes. “Muita gente acha que eles vêm tirar empregos de outras pessoas e não é bem assim. É preciso ver eles com bons olhos. São pessoas que estão buscando uma vida melhor. Vamos lembrar que eles não estão aqui apenas por eles”, comentou.

“Meus filhos choram todos os dias com saudades. Vou ir, mas vou voltar. Aqui temos como viver e temos proteção”, lembrou Kandji.

Assistência Social

O secretário de Assistência Social de Criciúma, Paulo César Bitencourt disse que é difícil precisar o número de imigrantes na cidade, já que eles mudam de cidade muito rápido. “A Receita Federal nos passou um número, mas é baixo, pois não são todos que buscam a regularização”, explicou.

Segundo o secretário, o município realiza campanhas e já distribuiu cestas básicas. “Fizemos ações também voltadas à saúde. Além disso, várias empresas acolhem eles e dão empregos”, esclareceu.

Imigrantes precisam retirar alvará na Prefeitura

Conforme a lei n° 6.822, de 15 de dezembro de 2016, nenhum comércio ambulante em espaço público é permitido em Criciúma. A pretensão é coibir ambulantes ilegais e regulamentar a atividade lucrativa. As apreensões de produtos irregulares acontecem e as mercadorias serão devolvidas somente após pagamento de multa. O valor é determinado conforme a quantidade de mercadoria apreendida.



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