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Geral

O bom vinho de Santa Catarina

Conheça o vinho produzido em Urussanga que é raro no mundo

Por Eduarda Salazar e Maria Eduarda Paganini | Acadêmicos do curso de Jornalismo da Satc*

8 min de leitura

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Foto: Divulgação

Quando o assunto é vinho, o Sul de Santa Catarina está bem servido. A região é rica em rotas gastronômicas em vinícolas artesanais, que são indispensáveis no roteiro de quem aprecia a bebida. Municípios como Urussanga carregam a cultura da produção de vinhos desde o início da década de 1920, quando colonizadores italianos trouxeram as primeiras espécies de uva para a cidade. A região produz um vinho raro no mundo, da uva Goethe. A fruta única é plantada nos Vales da Uva Goethe, em Urussanga, e é transportada para municípios vizinhos, como Nova Veneza, que abriga vinícolas que são referência no país.

O popular vinho da uva Goethe já era conhecido nacionalmente na década de 1930, quando a bebida era consumida no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, por Getúlio Vargas, então presidente da época. Segundo o vinicultor e proprietário dos Vinhos Trevisol, Gilmar Trevisol, Vargas decidiu presentear o município com uma estação de enologia, que hoje é a Estação Experimental de Urussanga (EEUR), uma das unidades da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, a Epagri. “Nessa época a uva já era plantada em grande extensão, a produção estava a todo o vapor. As empresas produziam alta quantidade para vender o produto para todo o Brasil”, explica.

Os sabores especiais e a infraestrutura das vinícolas da região atraem turistas de todo o Brasil e movimentam a economia das cidades. Essa movimentação também manteve a cultura e a história do povo, que até hoje passa as tradições de família de geração em geração. O sócio e proprietário da vinícola familiar Borgo, em Nova Veneza, Elias Gava Colombo, conta que há pouco mais de 20 anos seus pais tiveram a ideia de construir um pequeno castelo de pedras para iniciar a produção. Colombo diz que a região ainda não era reconhecida pelo turismo, mas que a família montou a estrutura de forma atrativa para despertar o interesse das pessoas em conhecer o espaço e os processos do vinho. “Como o vinho precisa ser armazenado em lugar fresco, meu pai pensou em construir o castelo de pedras, para que o ambiente ficasse climatizado naturalmente. A cidade foi se tornando cada vez mais turística, pois o pessoal começou a se interessar pelas vinícolas da região. Hoje recebemos aqui excursões de vários estados, principalmente do Rio Grande do Sul”, ressalta.

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Colombo conta que a matéria-prima utilizada na produção da vinícola é trazida principalmente da cidade vizinha, Urussanga. Os vinhos da uva Goethe fazem sucesso entre os visitantes, que podem degustar a bebida e apreciar a vista do castelo de forma gratuita. “É um vinho bem peculiar e que o pessoal gosta muito. Por ser um tipo raro, atrai ainda mais a atenção dos turistas”, afirma.

Tradições que movimentam o turismo

Cidades interioranas são muito conhecidas por suas festas tradicionais, que carregam a história dos povos colonizadores. Em Urussanga, a Festa do Vinho acontece desde 1984, quando foi promovida pela prefeitura, no parque Ado Cassetari Vieira. O objetivo era promover um evento para exaltar a produção da bebida na cidade. Até hoje a festa é um sucesso no município e reúne turistas de todo o país. Anualmente o evento traz atrações artísticas regionais e nacionais, além do carro-chefe, o vinho urussanguense, exposto em estandes, abertos para a degustação.

Segundo o proprietário dos Vinhos Trevisol de Urussanga, Gilmar Trevisol, a festa é importante para o reconhecimento da atividade. “A festa é uma vitrine, onde todos os produtores têm a oportunidade de colocar à mostra seus produtos”, ressalta.

Em Nova Veneza a cultura também é exaltada todos os anos na Festa da Gastronomia Típica Italiana. Em 2022 foi realizada a 16ª edição da festa, de 15 a 19 de junho. O evento comemora as tradições dos primeiros povos italianos que colonizaram a cidade. Os pratos e bebidas típicas são as atrações principais, onde entidades e produtores locais têm a oportunidade de mostrar para a comunidade e turistas os seus trabalhos.

Neste ano, a vinícola Borgo esteve presente na festa. Para Elias Gava Colombo, tanto a comunidade quanto os restaurantes e vinícolas aguardam o ano inteiro para a chegada da data. “Nós nos preparamos o ano inteiro para apresentarmos o nosso produto a quem passa pela festa. São meses de organização para podermos receber os turistas aqui na vinícola e na festa”, pondera.

Curiosidades sobre o vinho da uva Goethe

Em 1852, a Itália foi a difusora na produção das uvas Goethe. Devido a uma doença que atacava as raízes dos parreirais, uma espécie mais resistente teve que ser desenvolvida. Famílias italianas descobriram o método ideal de cultivo, para melhorar a qualidade da fruta. Trevisol conta que colonizadores italianos chegaram ao Brasil por volta de 1893 e iniciaram o plantio da uva no solo de Urussanga. “A fruta desenvolveu características únicas em Santa Catarina, pois se adaptou bem ao clima do estado”, afirma.

O sabor do vinho é fresco, intenso e com acidez equilibrada. Outra característica marcante são as notas de flores e frutas, que ficam ainda mais intensas quando é consumido gelado. Combina perfeitamente com queijos, frutos do mar, carnes brancas e comida japonesa, como o sushi e o temaki.

Trevisol explica que durante a fase de desenvolvimento o ciclo natural da uva é dividido em seis etapas. A primeira é a brotação, onde após a poda a videira começa a brotar. Esse processo acontece entre os meses de setembro e outubro. O próximo passo é o crescimento, nessa etapa as primeiras folhas começam a aparecer. Após vem a floração, que ocorre de seis a 13 semanas. A penúltima etapa é o pintor, onde a uva muda de cor. Depois de dois meses acontece o último processo, o amadurecimento, um dos períodos que mais interfere na qualidade da uva.

Por ser uma fruta muito sensível e perecível, não pode ser comercializada, devido ao tempo de armazenamento.

O diferencial da Goethe

A Goethe é uma uva branca e híbrida, resultante do cruzamento das uvas moscatel e isabel, consideradas uvas comuns. “Ela tem 83% de uma moscato de alexandria e o resto de uma isabel. Com isso ela tem essa rusticidade da isabel e uma qualidade superior que vem da moscato, diferenciando ela de outras uvas da região, como a niágara”, explica Gilmar Trevisol.

A uva niágara, como citado por Trevisol, é uma das mais consumidas no Brasil. O vinicultor Valdemar Brolesi trabalha com esse tipo de uva desde 1994, quando criou a marca Brolesi em Criciúma. “É a famosa uva de mesa, aquela que você encontra no mercado, eu costumo dizer que tem o gosto do vinho tradicional”, comenta Brolesi.

A região sul de Santa Catarina tem um clima quente e úmido, exigindo maior cuidado na produção. A temperatura média de Urussanga é de 19° C, e está acima da temperatura média de São Joaquim, onde são cultivadas uvas e vinhos finos. A umidade da região, que chega a quase 80% ao ano, pode adoecer a fruta, deixando-a suscetível a doenças fúngicas.

De acordo com o Sindivinhos-SC, o vinho branco (tipo produzido pela uva Goethe) corresponde a 30% do consumo nacional, uma porcentagem baixa, comparada ao tinto, cerca de 70%. O vinho produzido com a uva Goethe possui um sabor mais ácido com aroma intenso. A fruta é altamente sensível e classificada com coloração amarelo-palha.

Fermentação alcoólica

“A etapa mais importante na produção é a fermentação, já que não há vinho sem ela”, comenta Valdemar Brolesi. A Lei 7.678, de 1988, define o vinho como “a bebida obtida pela fermentação alcoólica do mosto simples de uva sã, fresca e madura”. Nesse tipo de fermentação, de acordo com o vinicultor, o açúcar presente na fruta é transformado em álcool, através de microorganismos naturais, como a levedura. Para os brancos e rosés, o processo é feito após o esmagamento e a prensagem das uvas, já para o tinto a fermentação é feita primeiro. Enquanto é fermentada, a bebida libera gás carbônico e a temperatura precisa ser controlada para adequar-se para o tipo branco, sendo mais baixa, e para o tinto mais alta.

A maioria dos vinhos tintos e alguns brancos passam pelo processo de fermentação malolática, durante o amadurecimento em barris, após a fermentação alcoólica. “Essa etapa é a que dá charme no vinho, a madeira do barril agrega valor ao produto”, afirma o vinicultor. Ela é feita por bactérias boas que liberam dióxido de carbono. Nesse processo, o ácido málico é transformado em ácido lático, suavizando a acidez da bebida e deixando-a com sabor amanteigado.

Outras formas de usar o vinho

Muito além de uma bebida alcoólica, as qualidades da uva destilada são consideradas favoráveis à saúde. O vinho é rico em resveratrol, um composto da família dos polifenóis, encontrado principalmente na casca de frutos tintos, como as uvas. Essa substância encontrada principalmente no vinho tinto possui propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e efeito anticoagulante. “O vinho traz benefícios comprovados à saúde, se consumido da maneira correta e com consciência, pois ainda é uma bebida alcoólica”, comenta a nutricionista Michelly Nazário.

O vinho é muito versátil, podendo ser usado como vinagre, limpa-vidros, tintura de tecido, entre outras coisas. Leticia Marcolino, estudante de Nutrição e amante de vinho, diz que além de beber usa a bebida para outras coisas, como em cubos de gelo, e não nega uma boa geleia. “Gosto muito de usar o vinho como amaciante para carnes, além de macia fica muito saborosa”, conta Leticia.

*Sob a supervisão de Nádia Couto, professora do curso de Jornalismo do Centro Universitário Satc

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