Pais universitários: a história não contada em sala de aula
Estudantes que são pais contam suas realidades e buscam na educação um futuro melhor
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O ensino superior tem sido para muitas pessoas a base do futuro. Segundo os dados do Censo de Educação Superior 2017, mais de oito milhões de alunos estavam cursando uma graduação no país no ano passado. Entre esses milhões de acadêmicos estão quatro estudantes da região Sul que entraram na faculdade buscando sonhos, realizações e dias melhores. Ana Carolina Amorim, Ana Marina Gutterres, Celso Luiz e Mariana Nunes são pais e veem na educação um futuro diferente para seus pequenos.
Ana Carolina, de 25 anos, têm dois filhos: Lis, de sete anos, e Lian, de quatro. Ela cursa Jornalismo na Faculdade Satc, de Criciúma. Natural de Mato Grosso, ela reside em Araranguá há oito anos. A mato-grossense escolheu Santa Catarina como lar pela qualidade de vida que o Estado oferece. “Vim embora porque encontrei no Sul uma forma de viver melhor. Casei e vim morar na região”, explica.
A estudante de Jornalismo se separou recentemente, mas ficou com as duas crianças. Ela trabalha durante o dia e estuda à noite. Ela conseguiu entrar no curso por meio do Prouni. Bolsista, ela comenta que vê na graduação uma maneira de ter um futuro diferente. “Trabalho o dia todo, fico longe dos meus filhos durante toda a semana, estudo a noite e busco aqui dentro da faculdade dias melhores. Fui mãe muito nova, mas isso não é desculpa para não estudar, quero ser exemplo para os meus filhos. Mas se eu quiser ser exemplo e quiser com que eles tenham algo melhor, preciso me sacrificar hoje”, observa Ana.

A acadêmica lembra que não voltou às salas de aula antes por pena de deixar os filhos. “Eles eram muito novos e eu tinha pena de deixá-los sozinhos, entretanto, percebi que se eu não fosse estudar eu não conseguiria uma qualidade de vida melhor”, comenta.
Assim como Ana Carolina, Mariana Nunes, de 28 anos, também têm dois filhos: Maya, de um ano e quatro meses, e Noah, de dois anos e oito. Ela estuda Psicologia na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) pela manhã e trabalha durante à tarde em uma loja de brinquedos educativos.
Mariana está na segunda fase do curso e precisou adaptar uma rotina na vida de seus filhos e seu esposo para conseguir estudar. “Quando comecei a faculdade, coloquei os filhos na creche também. Mas eu precisava sair da aula para pegar as crianças, porque muitas vezes tinham febre, estavam doentes. O começo foi difícil, porém, nos adaptamos”, lembra.

A estudante de Psicologia ressalta que escolheu não trabalhar o dia todo para conseguir ter mais tempo com a família. “Se eu fizesse faculdade à noite eu não conseguiria ver eles. Meus filhos são pequenos e tornaria muito difícil. Meu marido, minha mãe e sogra me ajudam muito, porque eu não daria conta sozinha”, admite.
A mãe da Maya e Noah lembra que sentiu necessidade de focar nos estudos e pensar no futuro. “Estava determinada a voltar estudar. Planejei para retornar para as salas de aula e acredito que por isso está dando tão certo. Sinto que o planejamento é tudo quando queremos alcançar algum objetivo”, considera.
“Quando entrei na faculdade, eu já botei na cabeça, eu entrei, vou terminar. Não estou mais aqui para brincar. Já entrei na faculdade sabendo que seria difícil. Tenho consciência que tenho dois filhos pequenos e não penso em desistir”, afirma Mariana Nunes.
Celso Luiz, de 29 anos, é pai do Theo, de nove anos. Formado em Educação Física em 2014, hoje, é acadêmico de Jornalismo na Faculdade Satc. Cursando a segunda graduação, ele comenta que o Jornalismo sempre foi seu sonho, porém, só havia curso em Tubarão, por isso decidiu cursar primeiro Educação Física. Estagiário, o estudante avalia como difícil a vida acadêmica.

“Trabalho o dia inteiro, vou para a faculdade à noite. Sou estagiário, muitas vezes meus pais precisam me ajudar. Vejo meu filho nos fins de semana, porque por diversas vezes não consigo ver ele à noite. É difícil, mas não impossível. Vejo na educação uma forma de ser alguém diferente no futuro”, esclarece.
Por ter nove anos, Theo já entende que o pai cursa a segunda graduação e busca nos estudos um futuro melhor. “Já o levei na Satc e ele conheceu o estúdio de rádio, por exemplo. Cobro-o nas notas, trabalhos, provas. Ele ainda tem a percepção que o estudo é importante para a vida dele. Estou passando para ele que é na educação que vamos ser diferentes do restante”, declara.
“Não me vejo parando de estudar, quero continuar estudando. Não posso deixar minha cabeça parar. O estudo é base do futuro”, ressalta Celso Luiz.
Ana Marina Gutterres, de 50 anos, têm três filhos: Rafael, de 31 anos, Guilherme, de 30, e Maiara, de 26. Estudante de Enfermagem, na Unesc, ela esperou os filhos se formarem na faculdade para depois voltar a estudar.
“Primeiro eles se formaram, ajudei e depois eles me incentivaram a ir para a faculdade. Como eu não pude fazer isso mais nova estou fazendo agora”, relata. Ana explica que muitas vezes é cansativo trabalhar durante o dia e ir para a universidade, mas que tem o apoio dos filhos. “Às vezes quero faltar e eles pegam no meu pé. É cansativo, mas não quero desistir, vou terminar e me formar. Dar orgulho para o meu pai e também para os meus filhos”, completa.

A estudante de enfermagem afirma que escolheu o curso pela afinidade com a saúde. “Trabalhei 11 anos como técnica de enfermagem, então, resolvi voltar a estudar. Não podemos nos acomodar, por mais difícil que seja”, percebe.
Ela iniciou a faculdade com 47 anos e comenta que no começo da graduação foi difícil. “Pensei em desistir, mas a vontade de me formar é maior. Preciso atingir meu objetivo. Minha vontade é maior, a vontade de estar formada é muito maior, muito”, garante. “É difícil, tenho dois filhos em casa, trabalhar, cuidar do lar, dos filhos e ter 50 anos não é fácil, mas é preciso ter esforço”, completa.
“O mundo está muito rápido. Não é mais admissível você ficar para trás em relação à cultura. Porque se estudar, tudo melhora. O estudo vai mudar isso, garanto”, destaca Ana Marina.
Educação é a base
Os quatro estudantes entrevistados pelo Portal Engeplus ressaltaram que todo o esforço é pensando que a educação mudará o futuro de suas vidas e também dos filhos.
A estudante de Jornalismo Ana Carolina afirma que percorre mais de 85 quilômetros por noite para estudar em busca de trazer algo melhor aos filhos. “Tudo que estou fazendo é por eles, com certeza. Se eu não fizer por mim e pelos meus filhos, ninguém vai fazer. Sou dona da minha própria história e é por isso que estou passando trabalho hoje, para que no futuro eu e meus pequenos tenhamos a recompensa. É difícil, não vou negar. Mas é preciso ter coragem de seguir em frente”, analisa.

Já a acadêmica Mariana afirma que é difícil estar no mercado de trabalho com estudo, mas, para quem não tem, o quadro é ainda pior. “Estou fazendo pelos meus filhos e também por mim. É muito importante estudar e se manter focada. Meu esposo é formado e sempre me apoiou. Sabemos que já é difícil para quem tem estudo, imagina para quem não busca ainda mais conhecimento”, comenta.
O universitário Celso afirma que busca mostrar ao filho o esforço diário. “Quero que meu filho estude e busque uma vida melhor, assim como eu busco todos os dias. Estou na segunda graduação e quero uma terceira. Quero especializações na área da comunicação também. O futuro pede educação, o futuro pede por pessoas que buscam estudos”, pondera.

A aluna de enfermagem Ana Marina ressalta que existem dificuldades para ingressar na universidade, mas com força de vontade é possível. “Mesmo com a dificuldade financeira, você consegue estudar. Com o esforço todo mundo pode estudar. Os pais mais velhos precisam ter o incentivo dos filhos. Os filhos casam e você fica. Então, ocupar a cabeça, e nada melhor do que ocupar a mente com educação”, observa.
Colegas de classe
Os acadêmicos relatam que seus colegas de classes se surpreenderam quando souberam que eles já eram pais. Ana Marina, de 50 anos, já nota que os outros alunos a tratam com igualdade e percebe que muitos já conversaram com ela em busca de um conselho. “Por eu ser mais velha, notei por várias vezes que eles me procuram para conversarmos. Tenho mais experiência, é normal. Mas, é claro, eles se assustaram com a minha idade e com a minha história e de saber que tenho três filhos e vim depois de uma certa idade para a universidade”, ressalta.
Mariana explica que os seus companheiros de classe são mais novos e muitos se assustaram ao saberem que ela tem dois filhos. “A maioria dos meus colegas têm 18 anos. Talvez eles não esperassem que eu tivesse dois filhos, mas tenho. Já deixei de vir para aula, já sai mais cedo e tudo por causa das crianças, mas aos poucos eles se acostumaram e hoje entendem. Minhas amigas de universidade já conversaram comigo e falaram que nem imaginavam que eu tivesse filhos. É normal, entendo eles”, confessa.

Ana Carolina comenta que iniciou a faculdade e contou aos colegas que tinha dois filhos e por muitas vezes precisou se ausentar da sala de aula por causa dos pequenos. “Foi um espanto para muitos. Ninguém espera que um estudante tenha filhos. Quando entramos na faculdade as pessoas esperam outras pessoas e na verdade existem diversas histórias por trás de um acadêmico”, destaca.
“Não é difícil você dizer que tem um filho na faculdade, mas é difícil as pessoas entenderem que crianças precisam de atenção. É difícil explicar para os colegas que faltou aula por causa dos filhos", admite Ana Carolina.
Estudantes grávidas são amparadas pela lei
A Câmara de Deputados aprovou em março deste ano o Projeto de Lei 2350/15, do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), que aumenta o período do regime de exercícios domiciliares a que têm direito as estudantes grávidas a partir do oitavo mês de gestação.
O aumento do período total em que a estudante poderá estudar em casa abrange também as fases de puerpério e de amamentação. O afastamento deverá ser sempre determinado por atestado médico. De acordo com o texto, em casos excepcionais comprovados por laudo médico, o período de repouso poderá ser aumentado antes e depois do parto, com inclusão da estudante no regime de exercícios domiciliares.
A estudante também poderá realizar todos os testes, provas e demais exames preferencialmente dentro do calendário escolar, se compatível com o estado de saúde da estudante e com as possibilidades do estabelecimento de ensino. Para as bolsistas, o texto garante o recebimento de bolsa de estudos durante o período.

“Fiz faculdade até o nono mês de gestação. Eu ganhei meu filho faltando três semanas para terminar o semestre. O que faltou de conteúdo, os professores encaminharam pelo Portal do Aluno e terminei o semestre”, explica Jaqueline Bitencourt, estudante de Psicologia da Unesc. Atualmente, seu filho Henrique têm um ano e três meses.
“Foi muito tranquilo. Meus professores souberam abordar o tema. Fiz solicitação médica e apresentei os atestados. Durante a gestação foi tranquilo e após a gravidez todos entenderam e consegui estudar tranquilamente no tempo necessário”, lembra.
A fonoaudióloga Daniela Burtet Machado ressalta que cada bebê precisa de seu tempo para amamentar. “Sempre que o bebê tiver fome, ele precisa mamar. Cada neném tem seu tempo. Com isso, a mãe tem que estar disponível. A mãe tem que estar com ele para que quando a criança sentir fome, ela esteja ali para ofertar a amamentação e é por isso que é necessário se ausentar da aula e do estágio, por exemplo”, aponta.
Daniela explica ainda que as mães também precisam desse tempo. “A mãe também se beneficia. Quando a mãe está amamentando, ela libera hormônios na cadeia dela. As mães que amamentam também possuem chances menores de câncer de mama, por exemplo”, ressalta.
Sonhos
Conseguir ingressar na faculdade foi uma conquista para os quatro acadêmicos entrevistados, mas concluir os cursos, será algo ainda maior. “Consegui entrar na faculdade e me adaptar foi difícil, tenho 50 anos, não é fácil. Adaptação com os colegas, saber que tenho trabalhos e provas foi complicado. Mas, concluir o curso será muito gratificante, é meu maior objetivo hoje”, explica Ana Marina.

Para Celso concluir a segunda graduação é uma meta de vida. “Vou sempre dizer que estudar é algo viciante e que vício bom. Fiz a primeira graduação, mas a comunicação está no meu sangue, quero essa carreira. Porém, não vou parar por aqui. Quero a terceira faculdade, quero mais e muito mais”, garante.
Mariana comenta que terminará o curso. Segundo ela, essa é a maior meta dos seus próximos anos. “Não estou aqui para brincar. Isso é meu futuro e de meus filhos. Quero terminar a graduação e depois realizar mais cursos e especializações. Não posso parar, isso não passa pela minha cabeça, não tenho essa opção”, revela.
A estudante de Jornalismo, Ana Carolina lembra que não é fácil concluir um curso, mas é preciso ter força de vontade. “Meus filhos são onde busco força. Não posso pensar em desistir, quando cogito essa opção, vejo neles à vontade para continuar. Meu sonho é concluir o curso e ser uma jornalista por formação e trabalhar com que sempre sonhei. Quero dar uma vida melhor para as crianças, dar para eles o que eu não tive”, relata.







