Laudo confirma afogamento como única causa da morte de jovem que morreu em rompimento de ponte pênsil
Caso vem sendo tratado pela Polícia Civil como homicídio culposo
6 min de leitura

Dois inquéritos foram instaurados pela Delegacia de Passo de Torres e pela Delegacia de Torres para investigar as causas do rompimento de um cabo da ponte pênsil que liga os dois municípios. O fato aconteceu na madrugada da última segunda-feira, dia 20. De acordo com a Polícia Civil, a estimativa é de que mais de 50 pessoas estavam sobre a ponte no momento do ocorrido e quase todas caíram no rio Mampituba. Brian Grandi, de 20 anos, morador de Torres, foi uma das vítimas e o único a morrer em decorrência do fato.
As investigações do lado catarinense estão sendo coordenadas pelo delegado Maurício Pretto, que está atualmente na Central de Plantão Policial de Araranguá e que também responde pela Delegacia de Passo de Torres. Com a confirmação da morte de Brian, o caso passou a ser tratado como crime de homicídio culposo, quando não há intenção em matar, mas por imprudência, imperícia ou negligência, uma pessoa acaba tirando a vida de outra. A Polícia Científica já finalizou o laudo da causa da morte da vítima, confirmando apenas afogamento, sem nenhuma outra lesão causada pelo rompimento da ponte.
Corpo de Brian Grandi foi encontrado quatro dias depois, na orla da Praia Azul, em Passo de Torres, para onde foi arrastado pela água - Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros de Santa Catarina

As primeiras informações colhidas pela Polícia Civil catarinense, de acordo com o delegado, apontam que a estrutura da ponte já apresentava sinais de necessidade de manutenções.
“O nível de corrosão de cabos estava acima do normal. A forma de ancoragem da ponte é diferente do lado de Passo de Torres em relação a Torres. Na parte catarinense, a ancoragem é no solo. Na parte gaúcha é em uma viga e foi ali onde ocorreu o rompimento. Grampos utilizados de forma incorreta não davam a tensão correta de cabos. Na última semana de dezembro, um barco colidiu na ponte e isso pode ter abalado de alguma forma a estrutura e mesmo assim a ponte foi liberada. Tudo isso está sendo investigado”, enumerou Pretto.
Outro problema encontrado pelas perícias já realizadas é a falta de dispositivos secundários de sustentação da ponte. “Se você usa um elevador e um dos cabos se rompe, ele não vai cair. Ele tem dispositivos secundários para sustentar o elevador. Se você vai fazer um rapel, você tem um cabo secundário que vai lhe sustentar em caso de acidente. A nossa visão é que a ponte pênsil deveria funcionar da mesma forma e não foi encontrado nenhum dispositivo de segurança”, contou o delegado.
As investigações buscam também encontrar documentos que atestem a capacidade da ponte. No local há uma placa sinalizando que a estrutura suporta até 20 pessoas. “Mas quem definiu isso? Os municípios, até então, não nos mostraram nenhum documento de engenharia ou um estudo que mostre que esta é a quantidade correta”, indagou.
Ponte possui ancoragens diferentes em cada extremidade - Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros de Santa Catarina

Rio baixo e barcos salvaram pessoas
Na análise de Pretto a tragédia poderia ter sido ainda maior. Ele relata que no momento do rompimento do cabo da ponte, o nível do rio Mampituba era de aproximadamente quatro metros de profundidade, sendo que no dia seguinte chegou a sete metros devido às chuvas. Já foram ouvidas 35 pessoas, sendo que 30 delas relataram que chegaram a cair na água e outros auxiliaram nos salvamentos.
“Boa parte das pessoas que caíram na água sabiam nadar e conseguiram sair sozinhas. Barcos que estavam ancorados próximos da ponte também foram essenciais, porque neles tinham coletes que foram jogados para as pessoas. As condições do rio ajudaram outras pessoas a auxiliar quem caiu na água”, lembrou o delegado.
Não foi possível identificar o jovem Brian Grandi nas imagens recebidas pela Polícia Civil, mas as investigações apontam indícios de que a vítima estava no local na hora do episódio. “O rastreador do celular dele apontou para aquele local no momento da queda da ponte. A bicicleta dele estava amarrada próxima da ponte, no lado de Torres. Minutos antes da ponte romper, Brian estava com amigos em Passo de Torres, se despediu deles e teria ido atravessar a ponte para buscar a bicicleta. Então tudo leva a crer que ele estava, sim, sobre a ponte”, explicou Pretto.
Barcos ancorados próximos da ponte auxiliaram no resgate de pessoas - Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros de Santa Catarina

Possíveis indiciados
As investigações, até então, apontam para o possível indiciamento de gestores públicos. “A municipalidade não responde por crime. Quem responde por crime são pessoas físicas. Então o objetivo da investigação é apontar a responsabilidade dos envolvidos no caso. Quem é responsável pela manutenção da ponte? Quem autorizou o uso da ponte nas condições que estavam? Qual a culpa de cada gestor?”, acrescentou o delegado.
Ele não acredita em indiciamento de pessoas que estavam sobre a ponte. “Apesar dos vídeos mostrarem as pessoas balançando a ponte, pulando, não vejo nada de anormal. É muito comum as pessoas fazerem isso em pontes pênseis pra ver o balanço da estrutura”, salientou.
O próximo passo das investigações é seguir com a coleta de depoimentos de vítimas e testemunhas. A Polícia Civil aguarda também a apresentação de documentos solicitados para os municípios de Passo de Torres e Torres.
Posicionamento das prefeituras
O Portal Engeplus entrou em contato com as assessorias de imprensa dos municípios envolvidos no caso para saber a versão dos municípios sobre as acusações de falta de manutenção na estrutura.
A Prefeitura de Passo de Torres alegou que “aguarda o resultado dos relatórios do Instituto-Geral de Perícias (IGP) e da Polícia Científica” para uma nova manifestação. A Prefeitura de Torres afirmou que também aguarda o posicionamento oficial dos órgãos de investigação para se manifestar.
Leia mais:
Cabo de ponte se rompe e mais de 50 pessoas caem no rio em Passo de Torres
Ponte que cedeu em Passo de Torres estava com vistoria em dia, afirma prefeito
Passo de Torres: corpo encontrado em praia é de jovem desaparecido após queda de ponte







